Se Siem Reap impressiona pela beleza de um passado distante e suntuoso, Phnom Penh mostra as cicatrizes de memórias tão próximas quanto deprimentes. Em uma busca rápida sobre as principais atrações da capital do Camboja no Tripadvisor, as duas que aparecem em primeiro lugar são registros de um período de uma ditadura comunista megalomaníaca que deu novos contornos ao significado de crueldade e ausência de compaixão.

Parte da história do Camboja foi marcada pelo domínio francês e mais tarde pelo envolvimento na guerra do Vietnã. Quando os EUA estavam sendo eles mesmos e lutando a guerra que eles eventualmente perderiam, muitos suprimentos usados pelas tropas vietnamitas vinham de território cambojano. Insatisfeitos, eles resolveram bombardear territórios do Camboja, forçando pessoas a fugirem da morte buscando abrigo na capital do país. Em meio ao caos, um homem de nome Pol Pot instaurou um regime comunista insano baseado na agricultura, escravização da população, morte e medo. Para concretizar sua visão de uma sociedade pura, ele expulsou a população das cidades para o interior, onde as pessoas se tornariam camponeses trabalhando na produção de arroz. Imaginemos agora essas pessoas assistindo ao exército tomando a cidade e forçando-as a abandonarem suas vidas sem nem mesmo entender o que estava acontecendo. Muitos nem mesmo conseguiram terminar a jornada.

O terror instaurado classificou como inimigos do estado pessoas que usavam óculos ou que tinham as mãos lisas. Mas como assim? Bem, fazia parte da concepção de nação do regime Khmer Rouge uma população camponesa e ignorante. Qualquer pessoa que tivesse uma educação acadêmica era considerada um perigo em potencial. Também eram ameaças os estrangeiros e pessoas que falavam línguas estrangeiras. Eles foram presos, forçados a confessar crimes que não haviam cometido, sistematicamente torturados e mortos.

Aqueles que não morreram a caminho do interior trabalhavam nos campos de cultivo de arroz e enfrentavam jornadas de trabalho de doze horas ou mais na tentativa de atingir metas de produção impossíveis. A alimentação era escassa e consistia em uma sopa de arroz servida duas vezes ao dia. Ouvi uma história de uma mãe que viu seu bebê morrer porque ela somente podia estar com ele e alimentá-lo a noite. Seu corpo não tinha energia suficiente para produzir leite para amamentá-lo.

Fui primeiro a um campo de extermínio chamado de Choeung Ek Genocidal Center. Essa área é basicamente um cemitério de cidadãos cambojanos assassinados pelo regime. Pouco restou das construções que lá existiam. Quando o regime foi derrubado por uma coalisão de tropas cambojanas e vietnamitas, as pessoas revoltadas e empobrecidas destruíram o que puderam  e usaram os materiais que puderam recuperar para outros fins. Você anda pelo local escutando a narrativa de como ele funcionava e sobre o que foi o regime. Algumas partes são narrativas de sobreviventes. Ainda é possível ver onde as pessoas foram enterradas e eles nos dizem que na época de chuvas ainda emergem restos dos corpos que foram despejados no local. Ali morreram aproximadamente 20000 pessoas. No centro do local, uma torre alta abriga crânios dos assassinados que podem ser vistos através das paredes de vidro. Você pode entrar, se conseguir. Eu fiquei do lado de fora, fechei os olhos e pedi a Jesus perdão enquanto chorava. Você também terá a chance de ver uma árvore contra a qual bebês eram lançados para que morressem. O regime economizava balas e matava as pessoas de formas que fazem filmes de terror parecerem contos de fada.

No dia seguinte, fui visitar a prisão de nome Tuol Sleng Genocide Museum. É simbólico que o regime tenha usado as instalações de uma escola para um de seus principais centros de tortura. Esse lugar mostra com exatidão o que foi o Khmer Rouge – uma tentativa de obliterar qualquer conquista humana, como a solidariedade e o conhecimento. Aqui, diferentemente do campo de extermínio, as construções ainda resistem, dando testemunho dos horrores praticados. As salas de aula foram transformadas em celas e locais de tortura e guardam o mobiliário e instrumentos da época. Algumas delas são hoje usadas para a exibição de fotos de pessoas assassinadas e daqueles que serviram ao regime. Talvez o ambiente fechado das salas torne a visita ainda mais asfixiante que ao campo de extermínio. O calor úmido do Camboja envolve a história que vemos e ouvimos e falta ar. Eu não consegui fazer todo o percurso. Não consegui ver uma escola transformada num local de dor, medo, morte e tortura.

Estima-se que mais de dois milhões de pessoas morreram durante o regime, que durou menos que quatro anos. A população da época era de oito milhões de pessoas. A ambição de formar uma nação autossuficiente tornou-se mais e mais insana durante o período. As suspeitas de traição cresciam sem parar aumentando as mortes e conflitos entre aqueles que detinham o poder. O regime terminou com a derrota do ditador por tropas vietnamitas e cambojanas 1979.

Existe o turismo que precisa ver a dor, saber que ser humano é uma tarefa que abraçamos em meio a tropeços e solavancos. Dói ainda mais pensar nos acontecimentos do presente que são similares e como eles raramente despertam compaixão no mundo.  Por isso, é necessário visitar antigos campos de concentração nazistas, o museu da bomba atômica em Kyoto e esses dois locais em Phnom Penh. Mas não podemos mentir. De nada adianta vê-los se nós não pensarmos em nossas próprias limitações em sermos humanos, na nossa crueldade e na tristeza que cerca nossa sociedade ainda hoje. Ao sair do museu eu pensava se um dia turistas poderão ir a uma prisão brasileira conservada como elas são hoje –  ela seria assim transformada em um memorial dedicado, principalmente, à nossa população negra pobre, que tem sido cuidadosamente torturada em centros de tortura física e psicológica.

 

 

 

Obs1: minha máquina desapareceu misteriosamente durante essa viagem. Perdi as poucas fotos desses locais e essas do post foram escolhidas de outros sites. Felizmente, eu tinha backup de quase tudo.

Obs2: há, obviamente, mais atrações na cidade. Elas serão assunto do próximo post.

DICAS

  • O Choeung Ek Genocidal Center fica a 15 km do centro da capital. Você pode negociar uma corrida de tuk tuk por aproximadamente 11 dólares. O motorista vai te esperar para te levar de volta. O preço da entrada é de seis dólares e inclui o áudio em várias línguas. Embora não tenha português, há espanhol.
  • O Tuol Sleng Genocide Museum fica na cidade. A corrida de tuk tuk até o palácio real custou dois dólares. A entrada custa três dólares e mais três pelo guia de áudio. A carteira internacional de estudante te isenta da entrada.
  • Nós ficamos por volta de duas horas em cada local. Há muito para ouvir, ver e lamentar.