Eu viajo tanto pelo que acontece no agora quanto pelo meu futuro. Eu sei que as lembranças um dia me vem sem pressa e levam-me a lugares de um passado do qual não poderia me esquecer.

Em 2007, eu vivi na Irlanda por seis meses e antes de voltar para casa viajei por 40 dias pela Europa. Eu era jovem, tinha dezenove anos e estava realizando um sonho daqueles grandes que não precisam de motivos. Daqueles que tomam a gente para eles e assim se fazem urgentes.

Durante minhas aulas de inglês, ainda no Brasil, eu me perguntava se daria conta mesmo de me comunicar. Medo esse compartilhado por tanta gente que vai morar fora. Minha professora e hoje amiga de uma vida toda me contava das experiências dela no exterior e meus sonhos cresciam. Insegurança boba a minha. Ao chegar em Dublin, peguei um ônibus até a estação de trem e do meu lado estava uma americana. Comecei a conversar com ela, coração acelerado, excitado por estar no meio daquele sonho que tomou conta de mim e me levou para lá. Ela dizia que eu deveria ter ido morar em outro país para aprender outra língua. Meu inglês já estava bom.

Só que eu ainda não sabia, embora o sonho soubesse, que minha competência linguística não seria para viagens. Em breve ela faria parte de minha carreira, que por si mesma era sonho em gestação. Talvez por isso também eu tenha ido. Para me descobrir professor e deixar de lado a faculdade de psicologia que eu estava cursando na época. A educação era o sonho que eu não queria admitir, mas que já tinha me levado por caminhos certos.

Eu aprendi, sim, muito das coisas que queria. Aprendi a trabalhar, a conviver com pessoas muito diferentes das que conhecia no Brasil, a lidar com meu dinheiro e, sobretudo, que eu era capaz. Embora não percebesse, eu construía autonomia para tomar as direções que precisava. Eu aprendia sobre minha coragem e força sem saber bem se elas seriam suficientes para lidar com conflitos mais velhos que meus 19 anos de idade estavam dando conta de suportar.

Eu estudei inglês, superei minhas expectativas em relação a língua, vendi muito sapato e spray contra chulé. Me envolvi numa roubada de ano novo em Londres, tirei pequeninas férias para ir ao Marrocos e lá abri um pouco meus olhos para novos mundos. Fiz menos amigos que esperava. Fiz uma amiga que não esperava.

Fernanda é espanhola e me fez escrever este texto. Nós pegávamos ônibus juntos para ir para a escola. Ela mal falava inglês e eu mal falava espanhol e não foi preciso muita palavra para nos tornamos bons amigos. Antes de voltar ao Brasil, fui visita-la em Córdoba e embora eu já a tenha agradecido muito, eu não acho que ela não entenderia como aqueles dias foram fantásticos. Fiquei hospedado na casa da avó dela que produzia longos monólogos encorajados pelo meu sorriso de incompetência linguística. Estive com a família dela num almoço em que vi e experimentei a melhor paella do mundo. Fomos num show de flamenco em que eu era o único estrangeiro. Eu fiquei em êxtase ouvindo os músicos tocarem melodias tão rápidas quanto profundas e vendo mulheres levantarem-se tomadas de paixão para dançar. Conheci amigas dela e assinamos um contrato que era uma promessa de uma visita no Brasil que nunca aconteceu. Elas me levaram para um restaurante típico e comi rabo de touro sem saber o que era (eu ainda espero a chance de oferecer a ela dobradinha).

Mas esses dias eu pude voltar no TEMPO e ver que o TEMPO para mim, Fernanda e qualquer desses outros amigos especiais é só um detalhe bobo como as palavras que faltaram em Dublin. Ela tem o mesmo sorriso, a Espanha o mesmo gosto, Fernanda tem sonhos novos e agora incluem o Rafa e os filhos que devem vir em breve.

Dessa vez não teve contrato, mas teve promessa. Não dá pra saber onde os sonhos estão planejando nos levar. Mas eu sonho de olhos abertos também e dou uma forcinha. Aliás, eu os agradeço pelos sentimentos de amizade renovados pelo tempo e por um jantar em Madri. A palavra que anda junto com sonho e viagens é gratidão.