Alguns sonhos são difíceis de dimensionar até que você de fato possa toca-lo, ver de perto e principalmente deixar a energia do local tomar conta. Eu me lembro de pegar uma revista de viagem com uma linda matéria sobre uma país que eu até então não conhecia. As fotos me deixaram sem fôlego. Os pagodas dourados e os sorrisos das pessoas não me saíram da cabeça desde então. Quando tivemos que decidir o roteiro, deixamos Laos e Vietnã para a próxima para ficar dez dias em Myanmar, também conhecido como Burma. A questão do nome vem de dias difíceis para o país, quando um regime militar extremamente opressivo mudou o nome do país de Burma para Myanmar. Somente no final de janeiro de 2016 Burma concluiu a transição democrática e conseguiu se livrar desses filhotes de cruz credo.

Chegamos a noite, trocamos 100 euros e saímos com 136 notas de mil Kyat. O dinheiro daqui vale pouco e andar com pilhas de notas não é incomum. Felizmente, a criminalidade é muito baixa.

No primeiro dia em Yangon começamos com um café da manhã tradicional em uma casa de chá que na verdade seria o que chamamos de restaurante. Aliás, o café deles mais parece um almoço. Muita gente come macarrão! Fui ao banheiro e me surpreendi quando meus olhos ficaram cheios de lágrimas e me arrepiei. Confesso que foi uma cena estúpida, eu não tinha visto nada de especial. Na verdade, chorar me atrapalhou na difícil tarefa de acertar o buraco da privada asiática sem molhar meu pé. Fiquei pensando o que havia de especial nesse país.

Outras vezes, durante os dez dias que passei aqui, senti uma energia diferente. Me arrepiei, me encantei incontáveis vezes com o povo mais alegre e simpático que já conheci.

A pérola de Yangon é o Shwedagon Pagoda. Esse templo grandioso e deve ser visto, estudado com toda calma. Escolhemos ir no meio da tarde e esperar o anoitecer. A mudança da luz revela novos detalhes e novas belezas. Em muito templos do país você pode comprar folhas de ouro para colar nas imagens de Buda. Uma mulher me deu algumas para eu colocar. Que povo lindo!

Conhecemos um birmanês que morou muitos anos nos EUA e tivemos a oportunidade de conversar sobre as grandes mudanças pelas quais o país está passando. Ele mesmo abriu seu próprio negócio, o primeiro food truck da cidade. Ele vende fast food no estilo americano, frango e batata frita. Depois de tanto tempo fechado para o mundo, não é difícil achar agora grandes empreendimentos imobiliários em fase inicial. Eles têm lindas fotos anunciando prédios modernos e luxuosos que terão todo os confortos que certamente atenderão à elite local.

Também fomos a outros templos. O buda deitado do Chauk Htat Gyi Buddha impressiona, assim como o Buda em pé do Ngahtatgyi. Eles estão muito próximos e o trajeto pode ser feito a pé. Ao visitarmos o Lago Kandawgyi, construído ainda na época da colonização britânica, nos surpreendemos com uma paisagem maravilhosa. O lago é cortado por lindas pontes de madeira. Lá presenciamos uma festa de fim de ano letivo de uma escola onde as crianças corriam felizes enquanto os pais faziam um pique nique celebrando a formatura. Do outro lado da festa uma turma recebia seus diplomas. Os jovens vinham alegres pedir para tirar selfies conosco, os únicos intrusos do local.

Quando chegamos para visitar o templo Botahtaung, presenciamos logo em frente, algo que define porque amo viajar. A maior parte da população de Myanmar é budista. Entretanto, eles conservam elementos de um culto a espíritos chamados de nats. Pelo que entendemos, eles celebravam o aniversário de um deles. Muito batuque, uma multidão na rua, cores, balões, gente saindo e entrando de uma casa onde estava a imagem sendo cultuada. Algumas vezes alguém jogava dinheiro para o alto e as pessoas se esticavam para pegar. O que mais impressionou foram as manifestações mediúnicas em público. Algumas mulheres dançavam com movimentos rápidos que acompanhavam o tambor influenciadas pelos espíritos que eles cultuam. As manifestações pareciam ser inconscientes e elas eram contidas para que não caíssem ou não machucassem as pessoas em volta. Eu havia lido no guia algo sobre festas chamadas de Pwe que poderiam acontecer por diversas razões como casamentos ou aniversários. A descrição era muito próxima disso. Fomos informados que essa celebração duraria três dias. Eu entrei na casa e as pessoas não pareceram se importar com a presença de um estrangeiro. Foi incrível!

Já dentro do templo Botahtaung, pela primeira vez pude, de fato, entrar dentro de um pagoda. Lá está uma relíquia muito importante para os budistas, fios de cabelo de Buda. Eles estão protegidos dentro de corredores de um dourado incrível. O local exato onde estão os fios de cabelo também é todo coberto de outro e é um foço onde as pessoas jogam dinheiro.

Uma maneira de ver mais da vida dos locais é pegar o trem chamado de Cicular Train. As 39 estações cortam a cidade e os subúrbios dando a chance de ver como vivem muitos birmaneses. O trem demora cerca de três horas para fazer a volta completa, te deixando na mesma estação onde você começou sua jornada. O que acontece dentro dele é tão interessante quanto a vida do lado de fora. Muitas das estações são próximas a mercados de vegetais. Algumas pessoas carregam sacolas enormes para dentro do trem tão rapidamente quanto possível. Imagino que elas revendam os vegetais ou abasteçam seus restaurantes com eles. Vimos também gente transportando móveis e vendendo comidas típicas. Alguns vendedores montavam pratos de macarrão com vários ingredientes frescos picados ali mesmo. Havia também frutas e outras coisas que não sabemos o que era. Você pode descer em qualquer estação e pegar o trem seguinte.

A gentileza dos locais me marcou muito. Pegamos o trem em uma estação distante do centro e por isso éramos os únicos turistas por lá. Ao chegarmos, pedimos informação numa vendinha onde havia um senhor falava inglês e nos ajudou. Na verdade, ele trouxe banquinhos para nós, pediu alguém para ir comprar nossos bilhetes e nos explicou como pegar o trem. Quando entramos na estação já sabíamos tudo e nosso bilhete já estava comprado.

Ainda no avião da Malásia para Burma, senti do lado de dois brasileiros muito bacanas. Eles moram no Japão e estavam indo encontrar uma amiga local e conhecer Yangon e Bagan. Enquanto conversávamos percebemos “algumas várias” coisas em comum e nos encontramos depois na cidade. A amiga deles nos tratou com muita gentileza e carinho e nos explicou muito sobre a vida no país dela. O saldo de Yangon foram memórias profundas e novas amizades!

DICAS

  • O transporte público em Yangon consiste em algumas estações de trem e ônibus muito velhos e lotados, mas, felizmente, os táxis são muito baratos e os taxistas gentis. Não há taxímetro, pergunte antes o valor da corrida. Eles não costumam baixar muito o preço.
  • Cartão de crédito? Esqueça. Como no resto dos lugares que visitamos nessa viagem, aqui o negócio é pagar com dinheiro mesmo. Saque nos ATMs ou troque euro ou dólares. AS NOTAS QUE SERÃO TROCADAS TÊM QUE SER PERFEITAS. Nada de amassado, manchas ou qualquer imperfeição.
  • De todos os países visitados, aqui gastamos menos com alimentação e atrações turísticas. O mesmo não pode ser dito quanto aos hotéis, que são mais caros que no resto do sudeste asiático.
  • Compramos um chip para o celular para usar a internet. Ele custou 2000 kyat e colocamos 5000 de crédito. A internet funcionou extremamente bem, foi suficiente para todos os dez dias em Myanmar e nos ajudou muito!
  • Muitas pessoas passam uma espécie de mistura de pó de madeira com água no rosto. Eles dizem que deixa a pele bonita e protegida do sol.
  • É comum ver pessoas mascando uma mistura de noz de betel e tabaco. Ela vicia, estraga os dentes e tem cheiro ruim. Depois de mastigada, ela fica com cor avermelhada forte muitos cospem no chão que fica todo marcado.