O Inle Lake é um lago lindíssimo de 116 km quadrados. Ele tem fauna e flora exuberantes e moradores que têm um modo de vida peculiar. Além da pesca, lá são cultivados vegetais que são a base da alimentação das pessoas da região.

A forma mais fácil de se visitar essa maravilha é se hospedando na pequena Nyaung Shwe. Chegamos em um ônibus noturno da empresa JJ que foi muito curioso. Ele era limpo, confortável, tinha tela de entretenimento com alguns filmes e músicas (de divas e com letras para você cantar), tomadas, água, um lanchinho simples e um ar condicionado que tentava reproduzir as temperaturas dos invernos siberianos. Sabíamos da fama da empresa e levamos todas as roupas de frio que tínhamos na mala, nos cobrimos com duas mantas dadas no ônibus e mesmo assim passei um pouco de frio. Não posso imaginar a agonia de uns turistas vestidos com bermudas ou calças finíssimas usadas para visitar os templos no calor de 30 e poucos graus.

Em Nyaung Shew, tem um rio que está conectado ao lago, muitos hotéis e restaurantes para atender aos turistas. Em cada barco cabem até cinco pessoas. Você pode perguntar no hotel se tem gente que gostaria de dividir o barco que tem valor fixo, independentemente da quantidade de pessoas.

A embarcação é feita de madeira, é longa, rústica e motorizada. Já existe um roteiro padrão que você pode (e deve) adaptar ao seu gosto. Eu digo isso porque ele envolve algumas visitas a lojas na beira do lago onde você pode ver como são produzidos tecidos, prataria e cigarro. Tem, inclusive, uma lojinha onde estão algumas mulheres girafa. Depois de ter escapado da famigerada visita a essa tribo em Chiang Mai eu acabei as vendo em Inle Lake. Não sabia que seria parte do passeio e as duas francesas que foram conosco pareciam genuinamente interessadas. Confesso que ainda não sei muito bem o que pensar disso. Me incomodou profundamente ver os corpos deformados de mulheres que seguem uma tradição que hoje é atração turística. Eles mostram pra gente o peso dos anéis que são adicionados à medida que a criança cresce causando uma deformação nos ombros que dão a aparência de um pescoço longo. Nós vimos quatro mulheres. A mais nova ainda estava na adolescência. Os tecidos que elas produzem são lindos, as marcas de suas tradições não.

Nós visitamos um templo a beira do lago e também um monastério. O lugar que mais gostei, entretanto, foi o mercado local. Diferente dos outros mercados que havia visitado em Yangon, aqui o foco era a população da região que estava lá a procura de temperos, grãos vegetais e frutas. Havia também artesanato incrível para os turistas. Em Myanmar, encontramos, com facilidade, lindas marionetes de bonecos e bichos. Tem também cerâmica com pinturas delicadas, bijuterias e imagens budistas. Vale a pena passar pouquíssimo tempo nas lojinhas e um tempão no mercado. Claro que em um barco com quatro outros desconhecidos pode ficar difícil conciliar interesses. É melhor conversar com os coleguinhas no hotel para ver se a vibe é parecida.

Enquanto navegamos, vemos os pescadores da região que parecem executar uma coreografia intrincada e com preocupações muito mais estéticas que práticas. Cada barco longo e feito de madeira tem um pescador que se equilibra na ponta, em um pé, deixando o outro livre para remar. Dessa forma, as mãos ficam livres para manusear a rede. Muitos usam a rede tradicional, mas ainda há alguns que usavam a tradicional, uma espécie de cesto vazado. Daria para ficar horas observando os pescadores. Da vontade de saber muito mais sobre o estilo de vida deles e como é a pesca. Talvez valha a pena ter um guia. Nosso motorista não falava nada de inglês.

Nosso passeio saiu as 7:30 e voltou às 17. Paramos para almoçar em um restaurante tradicional construído sobre o lago. Comemos um arroz refogado delicioso, que é o que eu mais como pela Ásia. Não por falta de opção, mas porque eu gosto mesmo. Para a nossa surpresa, entretanto, o peixe local assado não havia sido feito na hora. Estava borrachudo e o tempero só tinha gosto de coentro.

No segundo dia na cidade, nós alugamos uma bicicleta e fizemos um passeio delicioso. Você pode fazer um percurso sugerido que dura pelo menos três horas. Claro que as paradas vão aumentar a duração do passeio que pode ser feito em uma manhã ou durante o dia todo. Nós pedalamos, primeiro, até uma estância de águas termais. Não é nada grandioso ou fantástico, mas foi bom para relaxar. Há duas áreas, uma para locais, com uma piscina grande para homens separada de outra para as mulheres, e outra com quatro piscinas pequenas para estrangeiros. Essa divisão já me fez torcer o nariz. Não entendi a necessidade. O bom é que você não é obrigado a usar a de estrangeiro. Depois de relaxar nas águas termais, nós pedalamos cinco minutos e pegamos um barco que nos levou ao outro lado do lago. O mapa que ganhamos indicava umas vilas da região e mercados. Parece que poderíamos ter ido mais longe e pegado o barco em uma vila, porém nosso tempo estava curto. Infelizmente, o mercado que tentamos visitar não estava funcionando no dia. Cruzar o lago nos deu mais uma chance de ver os lindos pássaros da região e os pescadores em sua curiosa dança. Já mais para o final do passeio, fomos a uma vinícola que fica em um morro que tem uma vista incrível. Além da degustação de vinhos, eles servem uma comida deliciosa. Ela está indicada no mapa e tem uma placa na estrada. Não posso dizer nada sobre a qualidade do vinho, porque disso eu não entendo bulhufas.

Quase em frente ao nosso hotel estava o restaurante  Live Dim Sum House, avaliado como o segundo melhor da cidade no TripAdvisor. Como lidar com seu restaurante chinês favorito estar localizado no meio de Myanmar? Comi muito dumpling e lamentei profundamente a distância de casa. Também posso recomendar o chocolate quente divino do The French Touch. Perfeito para aquecer a manhã ou noite frias dessa época do ano.

DICAS

  • O passeio de bicicleta não foi muito pesado. Você não precisa de ser um mega atleta para fazer. O primeiro trecho foi pior, muito buraco na estrada e uma pequena subida. O resto foi tranquilo. Tem algumas placas no caminho, mas não deixe de pedir informações e usar o mapa.
  • Leve lanchinhos e água no passeio de barco.
  • O barco todo custava 20000 kyat pelo dia inteiro.
  • A travessia do lago para duas pessoas, com as bicicletas, custou 8000 kyat. Não demorou 30 minutos. Achei muito caro tendo em vista que o passeio do dia todo do dia anterior custou 20000, mas não teve jeito.
  • A degustação de quatro tipos de vinho foi 2000 por pessoa.
  • A entrada da piscina de águas termais era 7 dólares para a comum e 10 para a de estrangeiros.
  • Leve roupas de neve para o ônibus e roupas de frio para o passeio de barco, já que faz muito frio de manhã no lago. Eles te dão uma coberta no barco. Mesmo assim, tenha calça e blusa de frio para essa época do ano. (Fomos em janeiro).