Pegamos um ônibus da empresa JJ de Inle Lake para Bagan às 20:00. Nesse não tinha tomada e as telas de entretenimento individual não ligaram. Já estava mal-acostumado. O bom foi que o frio ficou dentro de padrões toleráveis. As três da madrugada chegamos em Bagan, fizemos o check in e dormimos um pouco. De pé às 5:00 para assistir ao nascer do sol, eu esperava que realmente valesse a pena. Meu corpo não responde bem antes de 7 e acordei derrotado e tentando me convencer de que poderia valer a pena.

A aventura das bicicletinhas começou. Tão marcante quanto os templos, foi tentar domar as e-bikes. Eu pensava que alugaríamos uma bicicleta que tivesse um pequeno motor para ajudar nas partes mais difíceis, mas o que alugamos foi uma versão mais pobre da Honda Biz. Ainda no escuro, subi na minha e-bike e escutei as instruções. Os três ou quatro comandos eram muito mais que eu poderia assimilar naquela hora infame. Decorei a partida e o freio e saí cambaleando pela rua. Eu questionava minha sanidade de tentar aprender a pilotar um protótipo de moto no escuro, sem saber para onde eu ia e em ruas esburacadas. Isso sem falar no frio e na ausência de capacete. Os primeiros metros foram trágicos. Eu só conseguia pensar que fazer curvas seria impossível. Tentei evitar, sem sucesso, pensar se meu seguro do cartão de crédito cobriria uma fratura exposta e pinos.

Com a ajuda de Deus, Budah e dos Nats, chegamos ao Shwe-san-daw Pagoda. Ele é bastante popular para o nascer e pôr do sol por sua localização e altura. Você sobe no escuro, descalço e arruma um cantinho em meio a tripés e câmeras dos asiáticos que teimam em nos humilhar com seus equipamentos e habilidades superiores. A luz vai tomando conta da paisagem e o fôlego some. Você entende, embora não acredite muito bem, que está cercado por templos incríveis, de variados tamanhos e formas a perder de vista. Ao fundo, o cântico de um monge ecoa. Quando o sol aparece, o laranja do céu é salpicado de balões que aumentam a sensação de descolamento do mundo real que tanto experimentei em Bagan.

Tanta cultura e beleza de seus mais de 4000 templos são explicadas pelo fato de Bagan ter sido a capital de vários reinos de Mianmar. Os templos que vemos são feitos de tijolos, já que as estruturas de madeira não resistiram aos rigores do tempo e terremotos. Eles foram construídos entre o século 9 e 13.

De volta para o hotel, tomamos café e descansamos antes de sairmos novamente. Olhando o mapa, fica difícil escolher onde ir. Lá fora, fica claro que o mapa somente mostra uma fração dos templos e ver tudo não pode nem ser considerado. Por isso, muito alugam e-bikes. Elas ajudam a percorrer os labirintos de caminhos de Bagan. Se você preferir, poderá alugar bicicletas convencionai,s mas será extremamente pesado pedalar nas trilhas de areia.

Em alguns templos, há monges e alguns budistas praticando seus rituais. Na maior parte deles, entretanto, o que vemos são estátuas de Buda de vários tipos. Em muitos você estará sozinho. Os caminhos entre eles são, geralmente, trilhas de terra ou areia. Você vai derrapar e possivelmente cair. Se não se machucar seriamente, ria.

Nós planejamos os três dias aqui dividindo a cidade em três partes e focando cada dia em uma delas. Você pode usar o mapa para identificar os templos maiores. Muitos deles podem ser avistados facilmente e assim nós fomos seguindo na direção daquilo que nos chamava atenção.

Almoçamos um dia em New Bagan, no 7 Sisters. No outro, comemos no Be Kind to Animals, pertinho do Ananda Templo. Lá tem pratos vegetarianos deliciosos. No outro comemos no Weather’s Spoon. Ele fica numa rua na região noroeste da cidade, perto do templo Shwe zi gone. Lá há vários outros bons restaurantes. Uma noite jantamos no delicioso Star Beam que foi recomendado por uma amiga muito viajada. Ele tem duas filiais, uma em New e a outra em Old Bagan. A maior parte dos lugares em que comemos eram deliciosos e de estrutura muito simples. Muitos tinham bambo trançado no lugar das paredes e alguns não tinham nem pia no banheiro. Se você for mais sensível a cuidados de higiene, recomendo buscar os melhores restaurantes no Tripadvisor mas mesmo assim não olhar pra cozinha.

No nosso último nascer do sol, fomos premiados com uma nova amizade que tinha uma câmera linda e que tirou a única foto descente que temos desse momento. Já mencionei que perdi minha câmera na Malásia. Aqui fez falta demais. A câmera do telefone é muito ruinzinha. Eu tive certeza que poderia comprar uma no duty free shop de Kuala Lumpur, mas, pasmem, não havia nenhuma a venda. Essa nova amiga de viagens é colombiana, mora em Paris e já viveu em BH. Ela fez um curso de meditação de dez dias em Yangon. Dez dias, 10 mesmo, sem conversar, fazendo uma refeição às quatro e outra às onze da manhã e meditando o dia todo. A identificação foi forte quando ela falou que essa experiência era resumida pela música Survivor das Destiny’s Child. Soube naquele momento que seremos ótimos amigos.  Além dessa alma gentil colombiana, quando estávamos indo embora, um ser de luz da Korea (como eu amo a Korea) resolveu testar sua câmera oriental conosco. Ele tirou várias fotos e prometeu nos mandar quando chegar em casa. Ele não falava quase nada de inglês. Não sei quando ele volta, mas aguardo por esse dia ansiosamente. (hoje, dia de concluir esse post as fotos chegaram!!!!!!)

Na manhã em que não fomos ver o nascer do sol, fui acordado com um som altíssimo que era como um dragão cuspindo fogo. Dei um pulo da cama pensando que o hotel estava em chamas. Acordei meu marido e corri pra fora de pijama pensando numa rota de fuga. Eram os balões que estavam pousando pertíssimo de nós. Por sorte, não gritei e não havia ninguém próximo. Voltei rapidamente para o quarto e respirei aliviado. Primeiro por não ter sido visto e segundo por não haver um incêndio.

Aqui há muito artesanato lindo. É tradicional do país o trabalho de pintura em cerâmica. Você pode ir em lojas chiques e caras como a Bagan House Lacquerware que fica em New Bagan. Lá é possível ver como as peças são feitas. Eu andei com o máximo de cuidado para não tocar em nada. Quando estava saindo eu relaxei e dei um bicudo caprichado em algo pesado. Pensei logo no pior e em cifras altíssimas em dólar. Era o peso que segurava a porta. Oh glória!

Voltando ao assunto das e-bikes, todos os dias nossa bateria acabou. No primeiro, demos sorte. Só tivemos que empurrar a diaba por dois quarteirões até o hotel. No segundo dia, nós não fazíamos ideia de onde estávamos. Liguei no número que estava na chave e passei o telefone para uma mulher local que não falava uma palavra de inglês. Depois de meia hora chegou um moço sorridente com novas baterias. Isso é corriqueiro. Não se estresse, não espere desculpas ou desconto na hora de pagar. No terceiro dia foi um pouco pior. O nível da bateria começou a cair rapidamente somente depois de uma hora de uso. Já estávamos no meio de umas trilhas de areia meio isoladas e tentamos alcançar um templo enorme de onde poderíamos ligar. Não deu para chegar até lá e foi preciso empurrar a danada durante 20 minutos pela areia.

DICAS

  • Alguns turistas com alguma noção alugam capacete. Seja um deles.
  • Vá com calma nas partes asfaltadas, aqui tudo é na base da buzina e arreda que eu tô passando.
  • Leve água e algum lanchinho. Em muitos lugares não será muito fácil de achar.
  • Se você for com um coleguinha, fique atrás dele para pode ver todas as manotas dele com a e-bike e proteger sua dignidade.
  • Fique de olho no nível de bateria no painel. Antes que ela acabe, vá para um templo conhecido e ligue para virem trocar.  Ter um chip local ajuda muito. Obs: muitos templos pequenos
  •  não têm nome, por isso você terá que ir para um grandão.
  • Jeans e jaqueta ajudam a proteger de prováveis tombos.
  • Não se aflija, vá devagar e curta. Andar de e-bike é lindo.
  • Se você for ryka (https://www.youtube.com/watch?v=8oIPg3-WPpQ), ande de balão. Custa por volta de 300 dólares e dizem ser incrível. Reserve com antecedência.
  • Alguns templos conservam pinturas lindas e muito antigas. Eles são os menores e estão concentrados na região leste de Bagan, perto do templo Thambula. O Nanda Pyin Nya é incrível e ao lado dele tem um monastério com uma parte antiguíssima subterrânea que pode ser visitada.
  • O templo Pya Tha Da é ótimo para o pôr do sol. Ele tem um terraço enorme e é super alto. O nascer do sol também deve ser ótimo por lá mas para chegar até ele tem que passar por caminhos de areia que não são muito bacanas no escuro.