Revisitar um momento importante na nossa história pessoal é ser lembrado de como nos tornamos aquilo que somos hoje. Muita gente sonha com intercâmbio, tanta gente que essa experiência pode até parecer meio clichê. É bastante comum ouvirmos justificativas do tipo “eu vou amadurecer”, “preciso me tornar mais independente”, “preciso aprender outra língua”, “preciso ganhar experiência de vida”. Essa ideia faz muita gente sonhar, largar um bocado de coisas, se endividar, enfim, partir para longe.

Comigo não foi diferente. Eu queria o intercâmbio pelos mesmos motivos que quase todo mundo e, embora eu goste de pensar que sou diferente de muita gente, não há problema nisso. A grande sacada da experiência, entretanto, é que ela realmente te impacta de uma forma que te torna diferente, mas não necessariamente diferente da galera que pensa em tudo de forma muito igual. Você muda, mas muda mesmo em relação a quem era. As coisas que pareciam tão certas ficam meio duvidosas e vão abrindo espaço para a pessoa se reconstruir.

Voltar dez anos depois para o lugar onde eu me reconstruí em certa medida me trouxe paz. Difícil de explicar porque, mas foi isso, foi bem desse jeito. Há uma certa estabilidade no mundo, pelo menos no meu mundo de lembranças. Foi isso o que eu senti ao retornar, caminhar nas mesmas ruas, beber o mesmo chocolate quente, conversar com amigos que não via há dez anos.

E Dublin é uma cidade encantadora, daquelas gostosas de andar e fáceis de localizar! Desde as ruas do centro, com seus monumentos imponentes como a Spire e a Trinity College, passando pelo Rio Liffey e suas pontes cheias de gente, o movimento dos pubs no bairro Temple Bar até  suas atrações, como o Jardim Botânico, Igreja de Saint Patrick e a Cadeia de Kilmainham.

Como estava, de certa forma, visitando minha segunda casa, aproveitei para ser menos “turista”. Estávamos lá no dia que Trump, o vampirão, iria assumir a presidência. Havia uma manifestação marcada e fomos. Ouvimos muitas pessoas interessantes, especialmente da comunidade de imigrantes que moram na Irlanda e que sabem bem o que a xenofobia, tão encorajada por tudo o que ele representa, pode fazer. Logo depois, fomos a uma sessão de cinema no Irish Film Institute. Naquele dia, o protesto dessa organização foi em forma de esperança. Eles resolveram exibir um documentário francês chamado “Demain”, em que diversas iniciativas inovadoras são mostradas. Foi bom ser lembrado de que esse mundo tem jeito sim e que se a gente ocupar cada canto com solidariedade, noções de comunidade, sustentabilidade e humanidade, os trumps do mundo ficarão recolhidos num espaço tímido reservado a quem pensa somente em si.

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É bastante fácil andar em Dublin. Você pode começar a explorar a cidade a partir do centro, na Avenida O’Connel. Bem no meio dela tem um obelisco enorme de metal, a Spire. Andando em direção ao rio Liffey, cruze a ponte e rapidamente você estará na universidade mais tradicional do país – a Trinity College. Você poderá entrar de graça e curtir o espaço ao ar livre no campus e ver a rotina dos estudantes. Lá dentro, não perca a exposição do Book of Kells (13 euros). Ele é um manuscrito ilustrado, do ano 800 AD, feito por monges celtas que fica guardado em uma biblioteca do século XVIII digna dos filmes do Harry Potter.

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Ao sair da universidade, siga a esquerda, na Grafton Street. Ela é só para pedestres e tem várias lojas. Uma das coisas que eu adoro sobre Dublin é a quantidade de pessoas tocando e cantando na rua. Na Grafton, sempre tem alguns e eles são excelentes. Pare para apreciar sem pressa. Sugiro ainda que você aprecie a música em companhia de um chocolate quente ou um café da deliciosa rede irlandesa Butlers. Ao final dessa rua, você vai encontrar um dos parques mais lindos de Dublin – Saint Stephen’s Green. Aproveite para descansar um pouco antes de bater perna pelas ruas charmosas do centro.

Ainda no centro, para quem é de festa, especialmente do álcool, vai amar se perder nos bares do Temple Bar. Além desse ser o nome dessa região, há também um pub, o mais tradicional da cidade, de mesmo nome. Ele fica bem cheio e é muito popular entre os turistas. Vale a pena por uma tulipa, mas talvez as outras você deva se permitir encontrar de maneira mais espontânea, depois de andar pelas ruas da região.

Indo agora um pouquinho mais longe, você poderá pegar um ônibus (Dublin não tem metrô) para visitar algumas das atrações mais bacanas de Dublin. Um passeio que gostei muito e não havia feito ainda é um tour histórico no Cemitério de Glasnevin (13 euros). É uma verdadeira aula de história que pode te deixar meio confuso se você não tiver nenhuma referência da história irlandesa. Como o cemitério é pertinho do Jardim Botânico (de graça), você pode combinar os dois passeios. O jardim é, provavelmente, meu lugar preferido na cidade. Calmo, cheio de natureza e paz.

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Ainda tem muitas outras coisas bacanas. Ainda na região mais central, a catedrais Saint Patrick’s e Christ Church são maravilhosas e valem a visita. Você pode também visitar a fábrica da cerveja Guinnes e aprender mais sobre sua história e forma de produção. Tem também o Museu Nacional da Irlanda e dezenas de outras atrações interessantes. Se ainda estiver no clima de natureza, pegue um ônibus para chegar ao Phoenix Park, o maior parque fechado e público de toda a Europa.

DICAS

  • Tenha o valor da passagem de ônibus trocado e em moeda.
  • Como uma boa capital cosmopolita, você vai encontrar aqui restaurantes com comidas de várias partes do mundo. Aproveite os restaurantes coreanos, onde você encontra, na minha humilde opinião, a melhor culinária do mundo.
  • Se gostar de cerveja, você pode visitar a fábrica da cerveja Guiness. Eu fui quando morei em Dublin e achei legalzinho, mas eu não bebo, então não poderia mesmo ser dos melhores lugares para mim.
  • Uma das atrações mais disputadas do momento é a Cadeia de Kilmainham. Se você se interessa, reserve com a maior antecedência possível. Nós quisemos visitar, mas não havia ingressos disponíveis.
  • As visitas ao cemitério têm hora marcada, veja no site deles os horários e se programe para aliar essa visita ao Jardim Botânico. Ficam bem pertinho.
  • No centro, tem um bar/restaurante chamado The Church. Ele era realmente uma igreja e é bem legal. Lá eu encontrei amigos com os quais trabalhei numa sapataria quando eu ainda era jovem.