Cusco, para algumas pessoas, pode parecer uma cidade por onde se passa para chegar até Machu Picchu. Mas isso não é verdade. Lá ficava localizada a capital do império Inca e, como tal, guarda muita história. É certo que essa história se mistura à colonização espanhola e a conseguinte destruição de boa parte daquilo que os incas haviam construído. Felizmente, nem tudo se perdeu e a cidade parece ser ideal para descobrir a encantadora história  peruana.

As primeiras lembranças de Cusco, nossa primeira parada no Peru, serão a dor de cabeça e a falta de fôlego. A cidade está a 3400 m acima do nível do mar, o que geralmente causa fadiga e em alguns casos o chamado mal de altitude (enjoo, tontura, vômito). Para amenizar os efeitos indesejáveis, é comum mascar folhas de coca, beber o chá dessa planta ou tomar as soroche pills (comprimidos para o mal de altitude vendido em farmácias). Felizmente não tivemos maiores problemas, mas eu já tive uma experiência traumática anos antes no deserto de sal, na Bolívia. Eu acordei passando mal, coração disparado, com alucinações, achando que ia morrer. Foi ótimo e eu estava sozinho.

Nós demos sorte de estar em Cusco em julho, durante as celebrações em homenagem à Virgem Carmen. Ela é a santa padroeira dos mestiços e guardiã das músicas e danças tradicionais da região. Logo de início, fomos à Igreja de San Pedro (free), onde estava terminando uma missa para a santa. Logo em seguida, os devotos saíram em procissão pela cidade carregando imagens. Alguns homens vestidos em roupas tradicionais cantaram e dançaram em frente à Igreja. Durante parte da celebração, dois homens davam chicotadas na canela um do outro, sendo que se errassem e atingissem o chão a galera em volta deles morria de rir. Foi bem bizarro essa parte.

Bem ao lado dessa igreja tem o Mercado de San Pedro (free), onde você acha artesanatos variados e comidas tradicionais a preços módicos, como, por exemplo, porquinho da índia assado. Aproveite para conhecer variedades de milho e batatas que você nunca viu. Produtos tradicionais da região, como a quinoa e sal de vários tipos são bastante procurados pelos turistas e locais.

A cidade tem incontáveis edificações coloniais cujas fundações usam as pedras das construções incas que ficam expostas, formando a parte mais baixa dos muros. A rua Hatunrumiyoc é uma das melhores para vê-las. Aliás, o centro histórico é encantador. Comece pela praça principal (Plaza de Armas). Não há como ficar indiferente a imponente Catedral de Cusco (25 soles). Ela é imensa e é formada, na verdade por três igrejas. As obras de arte são belíssimas. Ela é uma das igrejas que mais me impressionou de todas que já visitei, mesmo as europeias. Ajuda na visita o guia de áudio que está incluído no preço do ingresso e tem bastante informação. Eu já havia visitado a catedral sete anos antes. Uma imagem que nunca saiu de minha cabeça foi o coro. Localizado no centro da edificação, ele é todo entalhado em madeira, cheio de detalhes preciosos e tem dois órgãos imensos.

Ainda na mesma praça, há a Igreja da Companhia de Jesus (10 soles). Embora menor, seu altar cheio de ouro impressiona. Também é possível subir na torre e ter uma vista bem legal da praça. Pertinho dali, visitamos o Convento de Santa Catalina (8 soles). Além de informações sobre a história da santa, que nasceu em família rica, mas largou tudo para se dedicar à caridade, você vai encontrar lindas telas sacras e mobiliário preservado que mostra como era a vida simples das freiras que moravam lá. Confesso que a visita foi meio macabra em certo momentos. Não havia outros turistas além de nós, a iluminação era pouca, o lugar gelado e uma parte do local estava com as luzes apagadas. Some a isso vários bonecos de freira em tamanho real espalhados pelo local, dava para gravar uma daquelas pegadinhas bizarras de terror fácil por ali.

Não perca o Convento de Santo Domingo (10 soles). Ele fica localizado bem onde havia um importante templo Inca chamado Templo del Sol. Lá dentro tem obras de arte maravilhosas e também alguns resquícios do que os espanhóis destruíram para homenagear a Jesus, que obviamente não queria nada disso. Durante o período em que estivemos em Cusco, estava havendo manifestações diárias de professores lutando por melhores condições de trabalho. Nesse dia, especificamente, eles foram exatamente para o quarteirão onde essa atração turística está localizada. O objetivo deles, claro, era afetar o turismo para chamar atenção, já que os governantes peruanos são bem toscos e não dão muita importância para educação.  Na verdade, os professores chegaram a fechar a linha de trem que leva até Machu Picchu, o que causou um belo alvoroço e levou o governo a declarar estado de emergência na região na tentativa de criminalizar o movimento. Os professores estavam manifestando de forma bem calma e em diversos momentos eles ficavam em silencio para não dar motivo para a polícia prendê-los. Além de termos observado isso tudo lá, ao lado deles, nó conversamos com uma professora que nos contou isso tudo. Por causa dessa manifestação, eles fecharam justamente a atração que estávamos visitando e todo mundo teve que sair, já que segundo os guardas do museu os professores ofereciam risco ao local. Assim a gente vê que a leviandade do sistema não tem fronteiras mesmo de país, porque dizer que professor vai quebrar museu já é R I D Í C U L O.

Em relação às ruínas incas propriamente ditas, elas ficam um pouco afastadas do centro. Não que seja impossível andar até elas. Nós, por exemplo, formos a pé. ERRO. Subimos uma escada gigante com o coração quase saindo pela boca e fomos os únicos chegando dessa forma. Geral veio de ônibus de excursão ou táxi. Para completar o sucesso dessa ideia brilhante, a entrada era um passe que dava direito a outras atrações do mesmo tipo que não queríamos visitar. O preço salgado de 70 soles nos fez descer outra escadaria de volta ao centro histórico. Não digo que não valha a pena, mas a questão é que nós havíamos feito um passeio de um dia inteiro recentemente pelo Vale Sagrado em que vimos ruínas de todo tipo e já tinha sido suficiente. Pegamos essa grana e usamos para comer, que é tão importante quanto visitar atrações de alto valor histórico.

DICAS

A comida peruana é divina. Um dos pratos tradicionais é o ceviche. No Barrio Ceviche comi o melhor da minha vida. Inesquecível! Fica cheio. Chegue muito cedo ou reserve.

O restaurante Green Point tem comidas veganas muito boas e um menu turístico para o almoço com muita comida e excelente preço.

O meu restaurante favorito durante os 15 dias que passei no Peru foi o Faustina. O atendimento, decoração e comida são impecáveis.

O Bairro de San Blas é super charmoso. Lá tem ótimos restaurantes, lojinhas lindas e bons hotéis.

Caso você queira visitar ruínas incas bem próximas à Cusco, existe um bilhete que te dá acesso à 4 lugares de interesse histórico: Saqsayhuman, Qenko, Pucapucara & Tambomachay. Ele custa 70 soles e dura um dia. Eu, particularmente, não recomendo essas visitas caso você esteja planejando ver o Vale Sagrado (assunto do próximo post).

Se você curte bastante visitas relacionadas à religião, há um bilhete que dá direito a várias atrações, inclusive à catedral principal da cidade e custa 40 soles. Se você planeja visitar a catedral e mais duas atrações, já vale a pena.