Eu acordo pela última vez no Mahatma Yoga Ashram.Ao longe, escuto os mantras da primeira aula do dia. Eles me acompanharam durante a semana e me ajudaram a sair dos padrões de pensamento demasiadamente analíticos que não contribuem para a minha melhora. É que muitas vezes a gente passa anos estudando algo que deveria te ajudar a despertar, mas o nosso materialismo e o ego nos aprisionam em processos cuidadosamente programados para nos manter onde estamos.

Quando eu decidir vir à Índia, eu ainda não havia sido capaz de enxergar o propósito desse retiro de yoga e meditação. É verdade que o desejava sim, mas eu não sabia que ele conseguiria fazer com que eu saísse do intelecto e fizesse contato tão profundo com minha espiritualidade, medos, culpas, capacidade de agradecer.

Rishkesh é o destino na Índia para muitxs que buscam o que o país tem de melhor – sua tradição espiritual. Aqui não se come carne, não vemos bebidas alcoólicas nos cardápios dos restaurantes e yoga, meditação e adoração aos deuses hindus e ao rio Ganges parecem ser a prioridade absoluta.

Naturalmente, em termos energéticos, a cidade contribui imensamente para práticas de purificação e reflexão espiritual. Os ashrams são muitos e minha escolha pelo Mahatma Yoga foi influenciada pelos comentários achados na internet e por sua localização. Na beira do Ganges, cercado pelas montanhas cobertas de vegetação densa, não é possível ficar alheio à generosidade da natureza nesse mundo.

Nosso programa começava às 7, com a aula de mantras. Nela, estudamos o significado dos mantras que entoamos e tentamos tocar alguns instrumentos para acompanhar. A intenção é se perder na música, relaxar a mente. Em seguida, dia sim, dia não, havia a purificação, que é a limpeza dos sinos usando um recipiente plástico com um orifício para derramar água por uma narina até ela sair pela outra. Parece incômodo, mas é eficiente e ninguém pareceu não gostar do processo. Em seguida, tínhamos o café da manhã, que era sempre delicioso. Aliás, a comida aqui no ahsram é divina! Depois do café, a primeira aula de yoga do dia. Mais tarde o almoço, mais yoga, em seguida, meditação, jantar e boa noite.

Eu pensava que a rotina do ashram me tomaria todo o tempo, mas não foi bem assim. O ritmo é leve e sempre temos tempo para conversar, ler, descansar ou mesmo passear entre as atividades. Eles oferecem também uma massagem como parte do programa e você pode escolher entre participar de um rafting no Ganges ou um trekking para ver o amanhecer de um templo no alto dos Himalayas. Porque está muito frio, ninguém quis o rafting e devo dizer que a experiência do trekking foi perfeita para fechar esses dias de cuidado íntimo. Saímos de carro ainda de madrugada e fomos subindo a montanha. Aconteceu um deslizamento na estrada que nos forçou a largar o carro e subir um bom trecho a pé. Lá em cima, o céu coloria a criação divina com esmero, enquanto o sol subia calmo revelando as montanhas dos Himalayas. Incrível. Descemos a montanha a pé e os corajosos se aventuraram nas águas geladas da cachoeira.

Outro momento muito especial foi uma visita que fizemos a uma vila na montanha, onde estava acontecendo um ritual de adoração a uma deusa hindu que só se repete uma vez a cada doze anos. Os devotos observavam um grupo de pessoas que, para mim que sou espírita, estavam em processo de transe mediúnico embaladas pelos espíritos e pelo som frenético do tambor.

Uma vez por semana, a aula de yoga acontece na praia do rio Ganges. Ao final, o calor do sol da manhã, a água clara do rio e o som do vento me trouxeram uma onda tão forte de amor e alegria. Obrigado, meu Deus, por tanto amor nesse mundo!

Quanto ao yoga, eu tinha esperança que 3 horas de prática diárias ajudassem a me tornar mais flexível. Porém, nosso corpo tem o seu ritmo próprio, principalmente no frio que fez aqui e eu precisei de me lembrar várias vezes de que yoga é amor, carinho, auto aceitação. Em especial, uma conversa que tive com uma de minhas professoras no Brasil se repetia em minha mente: “Matheus, você não é esse corpo”. Eu aprendi sim, aprendi muito nesses dias sobre asanas e detalhes das posturas que eu não havia prestado atenção antes. Mas o amor e cuidado comigo que eu sinto na prática com minhas professoras no Brasil, Letícia e Flávia, foram os sentimentos que eu procurei trazer toda vez que eu coloquei meus pés no tapete deste lado do mundo. Eu quero me lembrar sempre de que yoga é amor, não violência, é cuidado consigo mesmo.

Dicas

Oficialmente, o ahram oferece o programa por uma ou duas semanas, mas, na prática, eles são mais flexíveis. Não deve haver problema em ficar alguns dias a mais ou a menos. Mande um email para confirmar essa possibilidade.

Dezembro e janeiro são meses de noites e manhãs geladas. No ashram não tem aquecedor. Venha preparado.

O ashram não é muito rigoroso em termos de garantir que você cumprirá a rotina. Você é livre para participar das atividades ou não. Inclusive, você pode usar celular e eles até têm wifi. Eu recomendo aproveitar esses dias para dar um tempo das redes sociais, email, seriados e etc. Isso será crucial para você conseguir se concentrar nos seus processos íntimos.

Uma das experiências mais incríveis que já tive foi participar dos aarti na beira do rio Ganges. Os aartis são cerimônias de adoração. Em Rishikesh, há duas delas dedicadas ao Ganges que é considerado o néctar da vida e é, portanto, sagrado. Compre um barquinho feito de folhas que carrega uma vela e flores na entrada (20 rúpias) para oferecer ao rio e aproveite para fazer seus pedidos de paz e libertação espiritual. A cerimônia pode ser vista em dois lugares (Parmath Niketan Ashram e Triveni Ghat) e acontece assim que o sol se põe. Se puder, vá nas duas. A do Triveni Ghat é mais vazia, menos turística, maior e costuma incluir dança. A do Parmath me tocou mais profundamente, talvez por causa da quantidade maior de devotos.

Um passeio que vale a pena na cidade é a visita ao Beatles Ahsram. Ele é um ashram em ruínas onde os Beatles ficaram. O lugar é cheio de obras de arte lindíssimas!